A POÉTICA DA DESCONSTRUÇÃO
Dia desses parei para
refletir sobre meu processo de escrita. O que vem a ser essa poética que tem se
feito tão presente em meus escritos? Como defini-la? Estaria em conexão com
algum movimento literário? Ou é apenas a forma que encontrei de me expressar?
A urgente reflexão
levou-me à palavra que me move, sem dúvida, a desconstrução. É ela que estabelece
um diálogo intenso e profundo comigo mesma, com o que vivo e com o que sinto.
Tudo o que acreditei - ao longo dos meus 64 anos - ser verdade, ser
justo, ser real se desfaz nesta fase de minha vida. As crenças não mais se sustentam, foram construídas
sobre a ilusão.
Até mesmo as que usei como apoio ao longo da
caminhada, como a religião, a espiritualidade, hoje sei que basearam-se em projeções,
condicionadas ao mito da individualidade, da forma, do mundo. As frágeis paredes, erguidas ao longo da existência,
desabam, uma a uma, revelando o que não sou, o que nunca poderia ter sido.
A consciência, tão humana, prendeu-me a conceitos
da dualidade e foi incapaz de perceber suas próprias limitações, mantendo-me em
seu estreito ponto de vista. Mas, numa reversão incrível, a revelação se fez
presente. Com ela soltei-me do que era conhecido e lancei-me ao desconhecido,
sem medo.
O tempo da desconstrução chegou para mim, está em
minha porta, entreguei-me a ele e hoje funciono neste novo formato. Decidi me abandonar
nisso e não resistir mais, atrelada aos últimos tijolos, pois é nessa
desconstrução sem limites que a essência se manifesta, livre, sem controle de
mais nada, fluindo por onde tiver que fluir.
Deixo aqui alguns escritos que evidenciam esta
minha fase desconstrutiva. Gratidão por sua leitura,
Marina Marino
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Trilhos
Trilhos. Caminhei por eles. Levaram-me a destinos que não eram meus.
Mostraram-me lugares que não pretendia conhecer. Prenderam-me em atalhos que
não faziam parte do roteiro inicial.
Acreditei nos trajetos que distanciaram-me de mim mesma, de minha essência,
de minha verdadeira identidade.
Talvez o cansaço tenha me ajudado a acordar. Ou foi a ausência de mim
mesma? Só sei que saltei!
Pulei sobre a grama, verde e úmida. Molhei os pés no riacho. Senti o
perfume das flores. Escutei o som dos pássaros. Girei com os dois braços bem
abertos em busca do sol.
Mudei de rumo. Troquei de direção. Percorri novos caminhos, desta vez
traçados por mim mesma.
Os pés descalços não calçam mais conceitos ou preconceitos que não são
meus. Apenas me levam para aproveitar a paisagem.
O vento no rosto. A volta a mim mesma, ao que sempre fui. O retorno à
sonhada liberdade... de ser.
Antologia Elas e as Letras: Insubmissão Ancestral
Editora In-Finita
2021
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O Instante
Ir
Partir
Deixar para trás
Tudo o que foi
O vivido
O atravessado
O que não serve mais
Ir
Viver o agora
O instante
O que a vida tem a oferecer
Sem medo
Com confiança
As circunstâncias são incertas
Mas o destino é sempre o mesmo...
Rumo à felicidade...
Coletânea Enluarada II: Uma Ciranda
De Deusas
Editora Sarasvati
2021
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A DANÇA DA LIBERTAÇÃO
Vem menina...
Veste agora teu melhor vestido
Colorido e alegra como tua essência
Este que esvoaça em tua imaginação
E vai em direção à tua verdade
Você é livre, menina, finalmente
Nada mais te aprisiona
Os véus foram retirados
Os nós foram desatados
As algemas destravadas
Dá-me tua mão
Eu impulsiono teu voo
Voa à tua origem
Voa ao teu verdadeiro lugar
De onde nunca te moveste, apenas
esqueceste
E vibra no ritmo que o Amor
estabelece
Até encontrar outras meninas
Que, como você, voam também
Ao encontro do que sempre foram
E com você, dançam a dança da
libertação.
Coletânea Enluarada II: Uma Ciranda
De Deusas
Editora Sarasvati
2021

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